O ciúme foi o fator decisivo para o final do casamento de Bento Santiago e Capitu. Quando Escobar, melhor amigo do casal, morreu, Capitu chorou. Foi o que bastou para despertar a suspeita em seu marido. A desconfiança foi alimentada por episódios aleatórios que o marido ciumento atribuía à traição e somada à semelhança que Bentinho via entre o amigo morto e o único filho.
Cheguei a ter ciúmes de tudo e de todos. Um vizinho, um par de valsa, qualquer homem, moço ou maduro, me enchia de terror ou desconfiança, confessou o protagonista de Dom Casmurro, clássico da literatura assinado por Machado de Assis.
O ciúme doentio do personagem exemplifica bem os danos que a desconfiança pode causar ao relacionamento a dois. A trama do livro, não apresenta certezas de infidelidade nem para Bentinho nem para os leitores. Quem lê escolhe acreditar na traição de Capitu ou no delírio do marido ciumento.
E, apesar de a história se passar no século XIX, o drama poderia se desenrolar nos dias de hoje. A incerteza sem limites não é exclusividade da ficção, como ensina Márcia*, 49 anos.
Acho que, se eu não fosse tão ciumenta, eu ainda estaria com meu segundo ex-marido conta.
Tudo começou com um nome de uma mulher encontrado entre as anotações de trabalho do marido. A dúvida levou Márcia a investigar o cônjuge no serviço, no condomínio, entre os amigos das redes sociais. Ele jurou ser fiel, mas, mesmo sem uma única prova de infidelidade, o casamento de 10 anos ruiu.
Márcia não se casou novamente e hoje mantém um namoro a distância. Mas o medo patológico de ser traída segue atrapalhando:
Pense em uma pessoa se corroendo de ciúme porque o boy magia vai para a rua com os amigos. Sem falar com ele, não durmo tranquila, fico angustiada.
Na ficção ou na vida real, quando passa do limite, o ciúme pode ser preocupante tanto para quem sofre deste mal, quanto para pessoas que se relacionam com ciumentos. Muitas vezes considerado um algo a mais no relacionamento, quando faz com que um dos parceiros perca a razão por medo de ser traído ou abandonado, o sentimento pode até ser perigoso.
Você vive marcando presença? Não sossega enquanto seu parceiro(a) não liga para dizer que chegou em casa? Desconfia da própria sombra? Sempre tenta ler as mensagens no celular do namorado(a)? Respire fundo e continue lendo o texto. Confira se o ciúme que você sente dependendo da frequência e intensidade é o vilão do seu relacionamento.
*Nome fictício
Pode ser patológico
A velha afirmação popular de que o ciúme é tempero do amor não encontra eco nas manifestações doentias. O ciumento patológico não tem apenas medo de perder seu par, mas um desejo obsessivo de controlar seus atos, comportamentos e sentimentos.
O doente supervaloriza a dúvida e vai em busca de respostas. Mensagens em redes sociais, e-mails e registros telefônicos se transformam em incômodas evidências de que o outro tem uma vida misteriosa. Saber com quem o parceiro está e a que horas voltará são alguns dos questionamentos que podem causar brigas intermináveis. A vida a dois se transforma num verdadeiro martírio. A insegurança de um vira a prisão do outro.
O ciumento patológico assume um comportamento de investigação desenfreada. Mesmo quando não confirma suas suspeitas, ele encontra motivos para gerar conflito, pois seu juízo crítico está prejudicado. Neste cenário, além do prejuízo para a relação a dois, há uma reverberação nas relações familiares, sociais e profissionais diz a psicóloga Noemy Appel Dehnhardt.
É comum que o ciumento acabe isolando o casal. Foi o que aconteceu com Giovani, 21 anos. Aos 18, ele iniciou um relacionamento com uma jovem extremamente ciumenta. As saídas com os colegas de faculdade foram a primeira baixa da rotina dele. Depois, veio o futebol com os amigos.
Ela contava o tempo entre o f